Em 2026, 77% dos advogados brasileiros usam IA pelo menos uma vez por semana, contra 55% em 2025, e o uso mais comum é elaborar peças processuais, citado por 76% deles. A tarefa que a máquina mais absorveu é a mesma que, por décadas, formou o advogado júnior.
Por que importa?
O júnior não aprendia só em sala de aula. Aprendia fazendo a primeira versão da inicial, a pesquisa de jurisprudência e a triagem de intimações, e recebendo a revisão do sênior. Era trabalho repetitivo, mas era também a escola.
Se a IA faz a primeira versão em minutos, o escritório economiza tempo hoje. O custo aparece em cinco ou dez anos: faltam advogados que passaram pelo volume necessário para desenvolver julgamento. Ninguém vira sênior revisando o que nunca aprendeu a fazer.
O que está mudando?
- A produção padrão virou commodity. Peça de modelo, pesquisa inicial e comunicado de rotina ficam mais baratos para todos. Quando todo escritório tem a ferramenta, ela deixa de ser diferencial.
- O valor migrou para o julgamento. Estratégia, negociação e relação com o cliente não se terceirizam para a máquina. É por isso que o cliente passa a pagar.
- O mercado está se dividindo. De um lado, escritórios que organizam processos antes de automatizar e ganham escala. Do outro, os que automatizam o caos e competem só por preço.
- A governança não acompanhou. Apenas 34% das organizações jurídicas têm orçamento dedicado a ferramentas ou capacitação em IA. A adoção está acontecendo pela mão de cada advogado, não pelo desenho do escritório.
| Tarefa de entrada | Como o júnior aprendia | O que muda com a IA |
|---|---|---|
| Primeira versão da peça | Redigia do zero e recebia a revisão do sênior | A IA gera o rascunho; o júnior precisa aprender a revisar |
| Pesquisa de jurisprudência | Horas lendo decisões | Síntese em minutos; o desafio é checar fonte e aderência ao caso |
| Triagem de intimações | Classificava ato e prazo manualmente | A IA sugere tarefa e prazo; alguém precisa validar |
| Comunicação com o cliente | Escrevia cada mensagem | O texto sai pronto; tom e contexto continuam humanos |
Sim, mas
A IA também pode acelerar a formação. Um júnior que revisa dez rascunhos por dia, com critério claro e retorno do sênior, vê mais casos em um mês do que antes via em um trimestre. A condição é o escritório redesenhar o degrau em vez de simplesmente cortá-lo. Automação sem plano de carreira forma operadores de ferramenta, não advogados.
O que fazer esta semana?
- Mapeie as tarefas de entrada que a IA já assumiu. Liste o que o júnior fazia há dois anos e marque o que hoje sai pronto da ferramenta.
- Redesenhe o cargo em torno de validar e decidir. O júnior deixa de ser quem produz a primeira versão e passa a ser quem confere fonte, prazo e aderência ao caso, com critérios escritos.
- Crie uma trilha com revisão guiada. Defina o que muda de um degrau para o outro, de júnior a pleno, e garanta retorno semanal do sênior sobre o que o júnior validou.
No seu escritório, quem vai ser o sênior de 2036, e onde essa pessoa está aprendendo hoje?
Paulo Víctor Moreira é consultor de gestão jurídica, especialista em RH, plano de carreira e estruturação de escritórios de advocacia, com mais de 800 consultorias realizadas em todo o Brasil. OAB/PI 12.679 · @pv.gestaojuridica · pvgestaojuridica.com.br
Fontes
- OAB SP — Três em cada quatro advogados usam Inteligência Artificial no trabalho (26/03/2026): Relatório sobre o Impacto da IA no Direito 2026 (77% de uso frequente, 55% em 2025, 34% com orçamento dedicado)
- Portal Making Of — Uso de IA por advogados salta de 55% para 77% em um ano (24/08/2026): elaboração de peças como uso mais comum (76%)
